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09-02-2018
Duas conferências assinalam 500 anos da reforma protestante

As duas acções tiveram lugar em dois locais e temas distintos: uma na Universidade de Aveiro sobre o impacto social e intelectual da reforma; e a outra numa escola na cidade sobre o acesso do povo às Escrituras.

Sola fide (somente a fé), sola scriptura (somente a Escritura), solus Christus (somente Cristo), sola gratia (somente a graça) e soli Deo gloria (glória somente a Deus). Estas são as cinco solas por que ficou (re)conhecida a Reforma Protestante, que celebrou, no final do ano passado, os 500 anos. Uma data que as igrejas evangélicas de Aveiro não deixaram passar em branco, tendo realizado um ciclo de conferências, em dois actos, numa organização que envolveu a Assembleia de Deus de Aveiro, a Igreja Evangélica Baptista e da Igreja Evangélica dos Irmãos.
O primeiro “acto” teve um cariz mais “académico” e aconteceu no no auditório da Casa do Estudante da Universidade de Aveiro, onde foi abordada “A expressão geográfica, social e intelectual” da reforma. O tema foi “discutido” por Timóteo Cavaco, Alan Pallister e Joe Clarke.
Timóteo Cavaco salientou, na sua abordagem mais histórica sobre a temática, que Martinho Lutero “foi um escritor prolífero”, mas que “não escreveu obras muito extensas”. Porém, “mudou o curso da sua história e da história mundial”, com a publicação das suas 95 teses em 1517, cujo tema de fundo eram o abuso, por parte da Igreja Católica Romana, das indulgências (pagamento para a absolvição dos pecados).
O interventor recorda que há uma outra obra que tem disputado a importância das 95 teses de Martinho Lutero, referindo-se a “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, do “pai da sociologia” Max Weber, em 1904, tendo ambas sido escritas por alemães, apesar de separadas por quase quatro séculos. Ambos “quiseram apenas manifestar as suas convicções”, que foram demonstradas “num contexto muito próprio”. Weber aponta, referiu Timóteo Cavaco, “para a ideia da construção de uma Europa moderna, assente em duas concepções religiosas diferentes”, uma Europa “a duas velocidades”, em que uma tem “Cristo no centro” e outra tem “Cristo ausente”.
Timóteo Cavaco levantou a questão: “A reforma protestante alterou o mapa europeu?”. Em resposta, disse que “a Europa que entra no século XVI é uma Europa de frágeis equilíbrios”, onde existe uma perspectiva de pluralidade.
Martinho Lutero, que nasceu na Idade Média, “assiste ao nascimento da modernidade”, acabando por “ser um construtor activo das mudanças”, ainda que “não tivesse consciência disso”, argumentou o interlocutor, salientando que as 95 teses de Lutero surgem numa altura em que se vivia “uma crise do clero e da igreja”, sendo precisamente no interior da igreja, considerada uma “estrutura de grandes relações de poder”, “que se vão encontrar as maiores fragilidades”, já que o império estava “fragmentado e dividido”, o que permitiu que as ideias de Lutero se “disseminassem mais rapidamente”.

Impacto social e intelectual
Alan Pallister abordou, neste encontro, o impacto social da reforma protestante, salientando que “a justiça de Deus não é que o pecador atinja (a justificação) pelos seus esforços mas pela graça de Deus”, referindo-se às Escritura em Romanos 1:17. O interlocutor lembrou que “o impulso da fé traduz-se em obras”, o que leva a ter impactos na sociedade.
Já Joe Clarke centrou a sua alocução na expressão intelectual da reforma, salientando que se tratou de uma reforma de ideias, em três áreas chave: autoridade, razão e ciência. A reforma, frisa, constituiu um desafio à autoridade papal da época, promovendo uma diversidade doutrinária, uma autoridade que foi questionada por teólogos escolásticos e que levou à redescoberta da Bíblia. “A autoridade última está na Bíblia”, reforçou.
“Sem revelação estamos perdidos, sem esperança e na escuridão”, diziam os reformadores, aponta Joe Clarke, para quem, numa terceira abordagem, a reforma proporciona a “redescoberta de Deus e do mundo”.

A Bíblia ao povo
A segunda conferência, que decorreu no auditório da Escola Secundária José Estêvão, no centro da cidade de Aveiro, teve como tema “Bíblia ao Povo” e contou com as intervenções de Timóteo Cavaco, Alan Pallister e António Malheiro.
“Todos os refomadores vieram afirmar a autoridade espiritual e material da Escritura”, frisa Timóteo Cavaco, defendendo que para Martinho Lutero “a Palavra de Deus é o ponto de partida para a boa teologia – a teologia da cruz”.
Referindo-se às 95 teses escritas em 1517, salientou que esta data não corresponde “ao auge da teologia protestante”, mas aborda “um assunto específico escrito por um monge que se sente impelido a fazer mudança”. Uma mudança que ocorre porque a teologia de Lutero conduz “a um novo modelo de igreja e, depois, a um novo modelo social”. Uma mudança que ocorre pelo facto de ter exortado governantes à criação de escolas e pais a enviarem os seus filhos para os estabelecimentos de ensino, argumentando que “todos devem aceder aos conteúdos” e colocando “a Escritura no centro do conhecimento”.
Para Timóteo Cavaco, a grande preocupação de Martinho Lutero é “não deixar qualquer margem para que o homem tenha qualquer capacidade de substituir Deus no processo de salvação”, colocando “Cristo no centro de tudo o que é apresentado”.
Realçou que a imprensa foi um “aliado instrumental para que a Bíblia pudesse ser divulgada”.
Em Portugal, Timóteo Cavaco destaca que os “efeitos” da reforma notaram-se de uma forma tardia, tendo João Ferreira de Almeida sido o “primeiro reformador português”, tendo traduzido a Bíblia para a língua nacional, para além de ter sido, segundo uma tese académica recente, um teólogo e um pregador.
Alan Pallister, na sua intervenção, enfatiza que “a Bíblia quando foi traduzida para a ‘língua dos povos’ teve um impacto mutio grande nas famílias”. Num lar “puritano”, evangélico como hoje seria chamado, “a leitura e o ensino da Bíblia eram coisas muito importantes”.
Por sua vez, António Malheiro frisou que Martinho Lutero não era um simples monge, mas um professor universitário, que ao pregar as teses na capela era algo comum entre os académicos para depois “levantar o diálogo, a discussão”.
“Martinho Lutero levantou a Escritura sagrada e é isso que o torna diferente” de outros reformadores antes dele. Porém “não quis fazer uma ruptura com a Igreja (que já tinha tido muitas)”, mas sim uma “reforma da Igreja”, segundo o interlocutor.
“A Bíblia mostra o favor de Deus para com ser humano”, salienta António Malheiro, frisando que “Deus entregou a sua Palavra ao homem”, para “fazer parte da nossa vida”. Segundo o interlocutor, para quem a acessibilidade aos textos sagrados foi a grande forma de expressão da reforma, esta “restaura a fé primitiva do cristianismo, restuara a doutrina do cristianismo”.